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Seu sistema de gestão não é o software. É uma pessoa.

Camilla Barbosa
Escrito por
Camilla Barbosa

Para tirar uma semana de férias, a sócia trabalha duas a mais. Sete sinais de que falta um sistema de gestão no escritório de PI, e o teste da ausência.

Seu sistema de gestão não é o software. É uma pessoa.

Tem um cálculo que descobri ouvindo sócias de escritórios de propriedade intelectual. Para tirar uma semana de férias, elas precisam trabalhar duas semanas a mais. Uma antes, para deixar tudo encaminhado. Outra depois, para reorganizar o que foi feito de qualquer jeito durante a ausência.

Quase sempre contam essa conta rindo, como anedota de profissão. Mas a conta não é piada. É diagnóstico. Quem precisa de duas semanas para tirar uma não toca o próprio escritório. É tocado por ele.

Essa cena tem uma irmã mais incômoda. É a sócia que descobre, num jantar com um cliente antigo, que não sabe responder algo trivial sobre a carteira dele. Quantos processos ele tem hoje. Qual foi o último que se moveu. Se a renovação da marca principal está rodando. O cliente pergunta com naturalidade, no meio do segundo cálice de vinho. A sócia ri, anota num guardanapo que vai conferir e mandar amanhã. Manda. Demora dois dias.

Os dois cenários parecem desconectados. São o mesmo problema em disfarces diferentes, e ele é simples de nomear e difícil de aceitar.

O sistema de gestão do seu escritório de PI não é o software. É uma pessoa.

Quando essa pessoa se ausenta, por férias, demissão, uma audiência longa ou uma gripe forte, o sistema some junto. Não fica lento. Some.

O dia em que o sistema tira quatro horas de folga

Uma terça-feira qualquer. A paralegal sênior está em consulta médica desde as nove da manhã. Era para voltar ao meio-dia e vai voltar às três.

Em quatro horas de ausência, três coisas param. A leitura da RPI da semana. A confirmação de uma exigência que precisava ser respondida na quarta. O relatório de status de um cliente que pediu para receber ainda naquela tarde.

Não param por preguiça de quem ficou. Param porque ninguém mais opera a planilha com a fluência de quem montou cada coluna, cada cor de célula, cada regra interna que nunca foi escrita em lugar nenhum. Porque a pessoa que sabia estava ali todos os dias, e parecia que sempre estaria.

Esse "parecia que sempre estaria" é a parte mais cara de qualquer escritório de PI que cresceu rápido.

Sete sinais de que o sistema é uma pessoa

Conversando nos últimos meses com sócios de bancas em São Paulo, Rio, Curitiba e Belo Horizonte, fui consolidando o diagnóstico abaixo. Cada sinal, sozinho, parece pequeno. Em conjunto, eles formam o retrato de uma operação que cresceu mais que o próprio desenho.

1. Você não sabe, agora, quais prazos da carteira vencem nesta semana

Não responda em voz alta, responda só para você. Sem abrir nada e sem perguntar para ninguém: quantos despachos da sua carteira vencem nesta semana, e quais são?

Se a resposta começou com "deixa eu olhar", você opera sem visibilidade, e é exatamente assim que um prazo do INPI se perde sem ninguém perceber. O que existe no lugar da visibilidade é confiança em quem opera por você. Confiança é uma das coisas mais bonitas dentro de um escritório e uma das piores formas de saber o que está acontecendo na carteira.

2. Tirar férias dói antes e depois

Você quer marcar duas semanas em julho. A primeira coisa que pensa é que precisa deixar tudo encaminhado antes. A segunda é que vai pegar pesado em agosto para reorganizar.

Tudo bem se o escritório tem um ano de vida e dois clientes. Não está tudo bem com trezentos processos ativos e uma equipe. Férias que doem dos dois lados não são férias. São pausa técnica em uma máquina que não sabe operar sem você dentro.

3. A leitura da RPI come horas da semana de alguém

Toda terça, a Revista da Propriedade Industrial publica milhares de despachos. No seu escritório, alguém abre a revista, garimpa o que é da carteira, anota e distribui.

Faça a conta: horas por semana, multiplicadas por quarenta e seis semanas de trabalho no ano, pelo valor-hora de quem faz. Some o custo do erro, porque leitura manual em volume sempre erra, e o erro não é distribuído: ele acontece justamente nas semanas mais cheias.

Vale lembrar do tamanho do que está sendo lido à mão. A base pública do INPI acumula mais de 24 milhões de despachos, distribuídos por cerca de 6,6 milhões de processos de marca. A revista semanal é uma fatia disso, e encontrar o que é seu dentro dela é trabalho de cruzamento, não de leitura.

4. Quando o cliente liga, você procura antes de responder

Cliente liga perguntando como está o processo da marca dele. Você abre o e-mail, procura no WhatsApp, pede para alguém olhar na planilha. Quatro minutos depois, responde.

Quatro minutos não é tempo morto. É prova de que a informação do escritório está em mais de um lugar. E informação espalhada produz duas coisas: lentidão na resposta e versões diferentes do mesmo dado, conforme quem responde.

O cliente percebe. Pode não dizer, mas percebe.

5. Você dá desconto sem saber quanto o cliente vale

O cliente pede dez por cento na renovação anual. Você concede ali, no telefone, pela sensação de que aquele é importante.

As perguntas que ficaram sem resposta antes da concessão: quantos processos ele tem hoje, quanto paga por mês, quanto já gerou de honorário nos últimos três anos, quantos clientes indicou.

Se a conta só aparece depois, numa planilha aberta à noite, não houve precificação. Houve adivinhação, e adivinhação sai cara dos dois lados. Cobra-se a menos por instinto generoso e a mais por instinto defensivo.

6. Você reescreve a mesma comunicação a cada caso

Toda exigência gera um e-mail para o cliente. Toda publicação positiva gera outro. Toda oposição, um terceiro. Se cada um é redigido do zero e sem padrão, o custo é pago em duas moedas: tempo da equipe e percepção de qualidade.

Cliente que recebe comunicação consistente sente que está sendo cuidado. Cliente que recebe comunicação irregular, com tom e formato diferentes a cada vez, sente que está sendo lembrado por acaso. A diferença entre os dois sentimentos é a diferença entre quem renova contrato e quem responde "vamos ver no fim do ano".

7. Não há registro datado do que foi comunicado a quem

O cliente pergunta se vocês o avisaram daquela publicação. Você procura no e-mail, procura no WhatsApp, lembra vagamente de ter mandado, não acha.

Vale pensar no cenário pior, não no melhor. O cenário pior é uma petição sendo lida em voz alta numa ação de responsabilidade civil: o escritório não consegue comprovar a comunicação tempestiva ao seu cliente. Ausência de registro não se defende.

Sete sintomas, um problema só

Olhe os sete juntos agora. Não são sete problemas. São sete sintomas da mesma coisa.

O escritório cresceu sem que o desenho da operação acompanhasse. As ferramentas que davam conta da gestão de marcas com cinquenta processos continuam lá agora que são trezentos. O método também, só que hoje ele está apoiado em uma pessoa que sabe onde tudo está.

Isso não é problema de competência. A paralegal, em quase todos os escritórios que eu vi, é o oposto do vilão da história. É a razão pela qual tudo ainda funciona. O problema é estrutural. E problema estrutural não se resolve contratando mais uma paralegal, nem comprando um sistema de gestão para escritório de PI e mantendo o mesmo desenho por baixo. Resolve-se mudando como a informação circula dentro da casa.

Há um agravante de calendário que quase ninguém calcula. Em 2026, a média entre o depósito e a concessão de uma marca ficou em 21,7 meses. Cada processo que entra hoje vai continuar pedindo atenção por quase dois anos. Ou seja, a carga da carteira de hoje só aparece inteira no ano que vem, e ela chega independentemente de o escritório ter se preparado.

O teste da ausência

Se você quiser sair deste texto com uma coisa prática, é esta. O teste leva dez minutos e não precisa de sistema nenhum para ser feito.

Escolha a pessoa que hoje sustenta a operação do escritório. Aquela cujo nome apareceu na sua cabeça enquanto você lia os sete sinais. Agora responda, por escrito, quatro perguntas.

Se ela não vier trabalhar amanhã, quem lê a RPI de terça? Não vale "alguém dá um jeito". Vale nome.

Onde está a lista dos prazos em aberto, e quem mais consegue abrir e entender? Se a resposta envolve um arquivo que mora no computador dela, você já tem o resultado do teste.

Se um cliente perguntar hoje o que foi comunicado a ele em março, quem encontra a prova?

Quanto tempo o escritório levaria para voltar ao normal se ela pedisse demissão na sexta? Responda em semanas, não em adjetivos.

As quatro respostas juntas dizem, com precisão desconfortável, qual parte do seu escritório é estrutura e qual parte é uma pessoa. E elas servem para outra coisa, talvez mais importante: são a conversa mais honesta que você pode ter com essa pessoa, que quase sempre sabe disso melhor do que ninguém e carrega o peso sozinha.

Por que esperar sempre piora

A reação mais comum a um diagnóstico como esse é alguma versão de "faz sentido, vou ver isso quando passar o aperto deste semestre". Quase nunca passa.

Cada mês de adiamento aumenta o número de processos que vai precisar migrar quando a decisão finalmente for tomada. Aumenta o volume de comunicações sem registro acumuladas no histórico. Aumenta a dependência da pessoa que sustenta o arranjo atual, e essa dependência tem um vencimento que ninguém controla.

Vale olhar um número que resume o custo de operar no limite. Nas safras de 2013 a 2017, as últimas em que praticamente tudo já foi decidido, 50,6% dos pedidos chegaram ao registro, 28,1% foram arquivados e 18,4% foram indeferidos. Morre mais marca por falta de resposta dentro do prazo do que por decisão técnica do examinador. O risco real do setor não é perder no mérito. É não responder a tempo.

Quem redesenha a operação com trezentos processos sofre menos do que quem redesenha com seiscentos. O custo de organizar a casa cresce quase na mesma proporção do tempo que se leva para começar. Não existe o momento calmo para a virada. Existe o momento em que se decide fazer.

Se você marcou quatro ou mais dos sete sinais, a pergunta deixou de ser se vale a pena mudar. Virou quando e como. Para a parte do como, preparamos um checklist com doze passos para migrar uma carteira de marcas sem perder histórico, sem quebrar a comunicação com os clientes e sem perder prazo no caminho. Baixe gratuitamente aqui.

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